A carreira de Islam Makhachev faz mais sentido quando se começa bem longe do cinturão. Não com defesas de título. Não com discussões sobre ser o melhor peso por peso. Nem mesmo com o UFC. Começa no Daguestão, em um lugar que molda lutadores antes mesmo que eles entendam que estão se tornando lutadores. Montanhas íngremes, pessoas fortes, rotinas árduas. A vida lá não distribui suavidade por acaso. Meninos crescem em meio a salas de luta, disciplina, homens mais velhos que não desperdiçam palavras e a sensação de que, se você quer respeito, é melhor estar pronto para conquistá-lo novamente amanhã, mesmo que já o tenha conquistado hoje.
Esse universo permeia toda a carreira de Makhachev. É visível em seu estilo de luta. É perceptível em sua maneira de falar. Ele nunca se construiu como uma estrela extravagante em primeiro lugar. Ele se construiu como um atleta sério, partindo de uma base sólida. Ele nasceu em Makhachkala e cresceu em um ambiente onde os esportes de combate não eram fantasia. Eram trabalho real. Cultura real. Orgulho real. No Daguestão, os meninos crescem com a luta livre e o sambo de combate presentes em seu cotidiano. Makhachev também.
Ele não foi criado para ser um futuro campeão glamoroso. Ele foi criado em um ambiente onde o treinamento se torna parte do caráter. Ele cresceu em meio a salas difíceis e altas expectativas. Treinou com Abdulmanap Nurmagomedov, a mesma mente que moldou Khabib. Isso importa, mas não deve ser usado como atalho. Islam não se tornou grande por estar ao lado de outros grandes. Ele se tornou grande porque sobreviveu a esse sistema e continuou a evoluir dentro dele. Há uma diferença.

Quem está de fora desse meio costuma reduzir os lutadores do Daguestão a uma única coisa: luta agarrada, pressão e controle. Isso é preguiçoso. O jogo de Makhachev nunca foi tão limitado. Sim, sua base na luta agarrada era de elite. Sim, os instintos do sambo estavam presentes desde o início. Mas, mesmo no começo, havia algo mais refinado em seus movimentos. Ele era equilibrado. Era paciente. Sabia chutar. Sabia contra-atacar. Sabia ficar de pé na frente do adversário sem parecer apressado. Ele não lutava como alguém que precisava do caos para se sentir vivo. Ele lutava como alguém que queria que a luta se tornasse tão pequena que apenas suas decisões importassem.
Islam Makhachev ascensão leve
Antes do UFC, ele construiu sua carreira no M-1 e no cenário regional com muito esforço. Ele venceu. E continuou vencendo. Ele fazia o esporte parecer controlado ao seu redor. Já dava para entender por que as pessoas no mundo do MMA o levavam a sério. Ele não era apenas mais um prospecto da linhagem de Nurmagomedov. Ele era um problema à parte. Mais compacto que Khabib em alguns aspectos. Menos visível emocionalmente. Mais frio. Seu jogo não era agressivo. Ele se fechava ao seu redor.
Quando chegou ao UFC, as expectativas existiam, mas ainda não havia certeza. Essa parte precisava ser conquistada. Sua vitória na estreia contra Leo Kuntz pareceu um primeiro passo normal. Então veio Adriano Martins, e com ele veio o primeiro choque real da carreira de Makhachev no UFC. Martins o nocauteou no primeiro round. Para um homem que mais tarde se tornaria quase impossível de colocar em situações desfavoráveis, essa derrota importa muito. Mostrou que a carreira não nasceu perfeita. Também lhe deu algo que muitos campeões de longa data precisam no início, quer queiram ou não. Dor. Perspectiva. A prova de que uma leitura errada pode arruinar tudo.
Alguns lutadores passam anos tentando se recuperar de um nocaute como aquele, especialmente quando acontece antes mesmo de o público ter definido quem eles são. Makhachev não entrou em espiral descendente. Ele se reergueu. Isso diz muito sobre ele. Ele não reagiu como um lutador que precisava de proteção. Ele reagiu como um lutador que acabara de ser lembrado de que o esporte pune o excesso de confiança e a preguiça técnica mais rápido do que o talento pode salvá-lo. Ele voltou mais afiado.
Após a derrota para Martins, a sequência de vitórias que se seguiu tornou-se uma das mais sérias da história da categoria dos leves. Chris Wade. Nik Lentz. Gleison Tibau. Kajan Johnson. Arman Tsarukyan. Davi Ramos. Drew Dober. Thiago Moisés. Dan Hooker. Bobby Green. É uma lista forte, e o que chama a atenção agora é o quão completa ela parece. Diferentes perfis. Diferentes ameaças. Diferentes momentos de sua carreira. Ele continuou superando todos eles.

A luta contra Arman Tsarukyan merece atenção especial. Na época, parecia uma vitória difícil contra um estreante. Mais tarde, tornou-se muito mais importante porque Tsarukyan se consolidou como um dos melhores pesos-leves do esporte. Assista àquela luta hoje e você verá algo importante sobre Makhachev: ele já era um talento nato. Ele não estava se aproveitando da fama ou da sombra de Khabib. Ele já vinha se esforçando contra um futuro lutador de elite e vencendo as trocas de golpes que importam quando o nível da competição aumenta.
Quando finalizou Drew Dober e, em seguida, aplicou uma kimura em Dan Hooker no primeiro round, o cenário mudou rapidamente. A categoria dos leves não é uma divisão onde o status é definido apenas pelo cartel. É muito competitiva para isso. Você precisa forçar as pessoas a te enxergarem. Makhachev fez isso tornando-se impossível de ignorar. Ele nem sempre foi o mais barulhento, mas seu estilo agora era completo demais e sufocante demais para que ele pudesse fingir ser apenas mais um desafiante rondando o top 10.
Então veio Bobby Green de última hora. Makhachev o atropelou, e esse foi o último passo antes do título. A luta contra Charles Oliveira no UFC 280 foi o momento em que tudo deixou de ser conversa sobre um "futuro campeão" e se tornou realidade. Oliveira era perigoso, caótico, já adorado pelos fãs e carregava o tipo de confiança que havia quebrado uma longa lista de nomes de elite. Makhachev o derrotou com uma calma impressionante. Machucou-o em pé. Fez com que ele reagisse. E então o finalizou. Essa luta foi importante porque mostrou a verdadeira essência de quem ele havia se tornado. Não apenas um grappler. Não apenas um lutador de pressão. Um artista marcial misto de nível campeão que podia fazer um peso-leve, um dos mais perigosos de todos os tempos, se sentir em desvantagem.
Uma vez com o cinturão, a trajetória rumo ao título deu peso real à sua carreira. Alexander Volkanovski foi o primeiro adversário, e aquela luta disse muito mais do que um nocaute rápido jamais poderia. Volkanovski era pequeno para a categoria, mas brilhante, resistente e inteligente o suficiente para deixar quase qualquer um desconfortável. Makhachev venceu uma luta dura e competitiva. A revanche terminou muito mais rápido. Ele nocauteou Volkanovski com um chute na cabeça e socos. Essas duas lutas juntas ajudaram a explicar sua forma como campeão. Ele conseguia vencer lutas técnicas e profundas. E também sabia fechar a porta violentamente quando a brecha surgia.
Dustin Poirier foi outro teste importante. Poirier é o tipo de oponente que força um campeão a se manter honesto. Veterano. Perigoso. Resistente. Popular. O tipo de homem em quem os fãs confiam em grandes lutas porque ele já viveu muitas delas e não se intimida facilmente. Makhachev o finalizou no final da luta. Essa finalização foi importante porque não foi fácil. Veio depois de muito trabalho, muita tensão e daquele tipo de luta longa em que os campeões mostram quem ainda são quando não conseguem controlar cada minuto com tranquilidade.
É por isso que sua trajetória na categoria peso-leve se mantém relevante. Ele não apenas herdou um trono depois de Khabib, como construiu sua própria identidade de campeão. As pessoas sempre quiseram compará-los porque a conexão era óbvia demais. Mesma região. Mesmo campo de treinamento. Mesmo treinador. As mesmas suposições externas de que ele priorizava o wrestling. Mas a trajetória de Islam provou que ele não era apenas uma continuação. Ele tinha seu próprio estilo. Mais chutes. Mais golpes precisos de longa distância. Mais disposição para deixar a luta se desenvolver antes de apertá-la. Menos intensidade emocional. Ritmo diferente. A mesma seriedade.

Makhachev depois de Khabib
Essa foi uma das coisas mais difíceis que ele teve que enfrentar, e diz muito sobre o homem o fato de ele ter lidado com isso tão bem. Por anos, o mais fácil para o público era vê-lo como "o companheiro de equipe do Khabib" ou "o próximo talento daquela academia". Esse tipo de rótulo pode ajudar no início, mas depois pode se tornar uma prisão. Se você vence, as pessoas dizem que o sistema te fez. Se você tem dificuldades, as pessoas dizem que você nunca esteve nesse nível. Makhachev passou anos lutando para sair dessa sombra. Não com discursos. Com rounds. Com performances. Construindo um trabalho próprio tão sólido que, eventualmente, a comparação deixou de ser um fardo e passou a ser apenas história.
A morte de Abdulmanap Nurmagomedov tornou toda essa história ainda mais pesada. Não foi apenas uma perda para o treinador. Foi a perda de uma das figuras paternas e mentes esportivas mais importantes do mundo. Makhachev teve que continuar reconstruindo em meio à dor, carregando também as expectativas de uma equipe e de uma região que já haviam perdido um líder inspirador. Lutadores falam muito sobre lutar por alguém. Com ele, isso nunca soou falso. Você consegue sentir a seriedade disso.
Por isso, seus campeonatos nunca pareceram fáceis. Ele não estava lutando apenas por cinturões ou rankings. Ele carregava consigo uma escola, um método de treinamento e uma longa linhagem de altas expectativas daguestanesas para os maiores palcos do esporte. Há pressão nisso. Não a pressão das redes sociais. Pressão real. Aquela que te acompanha no treino quando ninguém está olhando.
Quando o reinado dos pesos-leves estava totalmente consolidado, Makhachev já havia respondido à maioria das perguntas óbvias. Ele conseguiria derrotar nomes de elite na trocação? Sim. Conseguiria vencer lutas duras de 25 minutos? Sim. Conseguiria finalizar campeões? Sim. Conseguiria manter o cinturão sem que o fantasma de Khabib ofuscasse a história? Sim. Essa última parte talvez seja a mais importante. Ele havia se tornado completamente ele mesmo.
| estágio de carreira | O que mudou |
|---|---|
| Daguestão e anos de sambo de combate | Construiu sua disciplina, base de luta agarrada e o estilo calmo que moldou tudo o mais tarde. |
| Perda de Adriano Martins | Deu-lhe a primeira lição dura da sua carreira no UFC e forçou-o a crescer de verdade. |
| Elevação leve | Transformou-o de uma promessa respeitada no concorrente mais difícil da divisão. |
| Charles Oliveira win | Tornou-o campeão peso-leve do UFC e acabou com qualquer conversa de que ele era apenas um potencial. |
| mudança para a categoria meio-médio | Inaugurou o segundo capítulo do campeonato e mudou a dimensão do seu legado. |
Então veio a grande mudança. Ele subiu para a categoria dos meio-médios. Esse tipo de decisão pode fazer uma carreira brilhante parecer ainda melhor ou, de repente, parecer ambiciosa demais. No UFC 322, ele venceu Jack Della Maddalena e se tornou campeão dos meio-médios. Isso é importante porque subir de categoria é fácil de anunciar, mas difícil de manter. A categoria dos meio-médios não perdoa. Homens maiores. Mais potência. Mais resistência no clinch. Mais risco em cada troca de posições. Makhachev venceu mesmo assim, e isso mudou a forma como as pessoas o classificavam historicamente.
Quando você se torna campeão em duas divisões, a conversa muda. Ela se torna mais importante, quer você queira ou não. As pessoas param de falar apenas se você foi o melhor em uma categoria em determinado momento. Elas começam a falar sobre legado, era, valor libra por libra e o quão alto seu nome deveria estar quando o esporte começar a definir suas carreiras mais brilhantes. Makhachev conquistou esse tipo de conversa.

Islam Makhachev após o segundo cinto
O que torna sua carreira interessante agora é que ela ainda parece ativa, não arquivada. Ele não é um daqueles lutadores que as pessoas só mencionam no passado. O trabalho ainda está em andamento. O título ainda está em jogo. A próxima defesa ainda importa. Isso dá à sua história uma energia diferente das histórias de carreiras mais antigas. Ainda há espaço para novas dores, novas vitórias, novos argumentos, novas provas. Isso é empolgante, mas também torna a honestidade importante. Ele não é um mito que terminou tudo perfeitamente e se aposentou. Ele é um problema vivo no cenário do campeonato, o que significa que a história ainda pode mudar.
Agora também há as questões financeiras, porque os anos de campeonato sempre trazem essa conversa à tona. Ninguém fora do seu círculo de negócios sabe o valor exato. O dinheiro do UFC é muito secreto para isso. Mas o panorama geral é bastante claro. As estimativas públicas geralmente o colocam em torno de seis milhões de dólares. Isso pode ser um pouco exagerado ou um pouco subestimado. O que importa mais é a trajetória. Ele veio de uma vida difícil, construiu sua carreira através dos esportes de combate e transformou tudo isso em uma das carreiras mais bem-sucedidas financeiramente que qualquer lutador do seu meio já teve. Grandes lutas por títulos, patrocínios, visibilidade e o status de campeão mudaram sua vida de verdade. Essa parte é inegável, mesmo que o valor exato permaneça em segredo.
- Ele vinha de uma cultura guerreira daguestanesa rígida e nunca perdeu essa seriedade.
- O nocaute sofrido contra Martins poderia ter interrompido sua ascensão, mas, em vez disso, a fortaleceu.
- Sua trajetória rumo ao título dos pesos-leves provou que ele era um campeão por mérito próprio, e não apenas o sucessor de Khabib.
- Conquistar o cinturão dos meio-médios fez com que a carreira fosse muito maior do que apenas uma categoria de peso.
A melhor maneira de entender a carreira de Islam Makhachev provavelmente é esta: ele não se tornou um grande lutador da noite para o dia. Ele se tornou indiscutível com o tempo. Construiu-se através da disciplina, derrotas, repetição, grandes vitórias e a pressão do campeonato. Ele veio de um lugar que produz lutadores sérios e provou ser um dos mais sérios de todos. Alguns campeões brilham intensamente e de forma selvagem. Makhachev construiu algo mais frio. Mais controlado. Mais duradouro. Mais completo.
É por isso que sua carreira já parece importante mesmo estando em andamento. Não porque seja perfeita. Não porque não tenha contratempos. Porque tem todas as características que uma grande trajetória no MMA normalmente exige. Começos difíceis. Uma lição dolorosa. Uma longa escalada. Um título. Um reinado. Uma sombra para superar. Um cinturão maior. E a sensação de que, mesmo depois de tudo isso, ele ainda entra na sala como se o trabalho não estivesse terminado.
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